As imagens acima, são de Santa Catarina. Em 2008, um fenômeno semelhante ao que presenciamos nos últimos dias na região serrana do Rio de Janeiro, ocorreu em uma região rural afetando a população e ocasionando todo tipo de perdas. Sabemos que isto acontece, e que irá acontecer de novo, e há quem diga que só não sabemos onde (?) e quando (?). Com o conhecimento que temos hoje é difícil concordar com isto. Não se trata de falta de informação, tecnologia ou investimento em infraestrutura, mas de decisão.
Estas imagens são de uma foto encontrada por bombeiros e voluntários que trabalhavam nos escombros de uma propriedade completamente destruída na região do Morro do Baú em 2008. Nela é possível perceber que aquela propriedade já havia sofrido uma inundação anteriormente. Este fato, por si só, já gera conhecimento suficiente sobre a vulnerabilidade existente naquele local. Da mesma forma não faltam relatos históricos e estudos sobre áreas vulneráveis a diversos fenômenos climáticos, mas a decisão acerca da sua ocupação existe. Então, por que as pessoas estão lá?
Para maiores informações sobre mapeamento de vulnerabilidade, acesse
aquiEm relação ao tempo, hoje é possível prever alguns fenômenos em tempo hábil para minimizar as perdas humanas. Exemplos existem e mais uma vez o que nos falta é decisão.
Na Europa: (
http://www.meteoalarm.eu/ e
http://floods.jrc.ec.europa.eu/flood-risk.html")
No Brasil: (
Santa Catarina e
Rio de Janeiro)
Esta “decisão”, que vem sendo anunciada pela mídia como responsabilidade de governo, deve ser distribuída por toda a sociedade. Se estas áreas são ocupadas por pessoas de baixa renda e baixa escolaridade, assim o são por desconhecimento ou impossibilidade financeira. Estas pessoas decidiram ocupar estas áreas para manterem-se próximas ao lugar que melhor lhes provêm sustento. E em muitos casos estas decisões são “direcionadas” por sistemas sociais, econômicos e políticos com interesse próprio. Por outro lado, se as áreas vulneráveis são ocupadas por pessoas influentes, informadas e ricas, como o caso do Vale do Cuiabá, o poder econômico é que impera. A decisão aí já é por prazer, status, descanso ou mesmo para usufruir dos bens proporcionados pelo capital. Neste caso são decisões particulares e conscientes.
As leis ditas “ambientais” não são criadas para atrapalhar o “desenvolvimento”, mas para tentar organizar um processo de apropriação da Natureza que nos permita manter o status quo incentivado pelo conceito de “qualidade de vida” capitalista. Elas são para todos, mas não são cumpridas por decisão.
Decidir por fazer obras de contenção de encostas é decidir por permanecer em áreas de risco. Decidir por não informar a população sobre os riscos de ocupar uma determinada região é decidir por condená-la. Decidir por morar em uma encosta, beira de rio ou de praia, consciente dos riscos, é assumi-los e não ter o direito de reclamar de prejuízos que venham a ocorrer. Decidir por investir grande volume de recursos em sistemas, instituições e infra-estrutura sem investir na capacidade de decisão é continuar fazendo mais do mesmo.
Mas para que as decisões dêm resultado, é preciso credibilidade. Um exemplo extremamente positivo, de baixo custo e independente de alta tecnologia ocorreu em Areal, onde o prefeito, através de um carro de som, solicitou à população que deixasse das áreas de risco (Leia mais
aqui). A credibilidade depende da participação ativa da população no processo de tomada de decisão. Para isso é necessário criar uma cultura de atendimento às normas legais e aos avisos e alertas sobre tais fenômenos, que só é possível através da educação.
Com educação é possível, ainda, partilhar as responsabilidades sobre a ocupação das áreas de risco. Comunidades com baixo nível educacional que ocupam estas áreas, são responsabilidade do governo, agora pessoas instruídas, também devem ser responsabilizadas.
O Brasil hoje conta com pessoas e tecnologia de ponta para lidar com estas catástrofes, o que nos falta é decidirmos se iremos colocar isto em prática ou não.
O evento ocorrido em 2008 em Santa Catarina foi amplamente noticiado na imprensa, instantaneamente, como ocorre hoje com Teresópolis, Itaipava e Nova Friburgo. A população se mobilizou, rapidamente correntes solidárias se formaram, doações materiais e em dinheiro chegaram e parte dos prejuízos materiais foi abrandado por esta corrente. Assim é, o Brasileiro é sensível ao sofrimento alheio, e pronto a colaborar e ajudar com sua generosidade.
As chuvas de novembro de 2008 causaram inúmeras perdas ao Estado. Perdas estas de grande contingente humano que trouxeram dor e sofrimento, principalmente para os habitantes do Vale do Rio Itajaí. Foram grandes também as perdas materiais, tanto de bens privados como do patrimônio público. As regiões mais afetadas por enchentes e deslizamentos foram os municípios de Ilhota, Luiz Alves e Gaspar. Trata-se de uma área estritamente rural até certo ponto semelhante à área fluminense afetada onde se concentram muitos produtores rurais.
Diante deste quadro (2008), a Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina – Epagri prontificou-se a auxiliar o poder público no que fosse necessário para o atendimento aos desabrigados. Assim a Epagri organizou uma força-tarefa que imediatamente se fez presente naquela região e disponibilizou corpo técnico e todo o seu potencial de geração de informações. Através do Centro de Informações Ambientais e de Hidrometeorologia – Ciram, foram mobilizados técnicos das áreas de meteorologia, hidrologia, solos e geoprocessamento, e toda a base de dados hidrometeorológicos
Este foi um belo exemplo do que poderia ser feito em todas regiões sabidamente em zonas de risco ambiental. Pergunta-se porque demora tanto para se aprender com as lições do passado e a negar a realidade. Por conta de sua geografia espetacular e tão particular, a cidade do Rio de Janeiro - bem como a região serrana, é vítima constante dos efeitos de chuvas-relâmpago as vezes torrenciais que causam enchentes, deslizamentos e tanto prejuízo material e perdas humanas.
Logo após o evento em Santa Catarina, o governo do estado criou um
grupo técnico científico para avaliar o ocorrido e propor medidas preventivas e de emergência. Mas apesar disso, até hoje faltam decisões. E o mesmo pode acontecer com o Rio de Janeiro.
Aparentemente, a Defesa Civil estadual, não está preparada o suficiente para alertar os 92 municípios fluminenses e os órgãos municipais de defesa civil de modo a ativarem seus planos de contingências em tempo. Uma ‘explicação’ dada pelo governo é que a resolução dos dados meteorológicos espaciais não é suficiente, para prever com precisão as áreas onde as piores condições meteorológicas ocorrerão. Mas isso é só uma pequena parcela do que deve ser feito.
Com a falta de comunicação ágil e eficiente necessária entre os diferentes órgãos e níveis de administração e a população em cheque, uma sugestão útil a se considerar é aquela oferecida pelo prof. Ernani Nascimento que sugere que ‘alguns moradores tenham treinamento e equipamento necessário’ como pluviômetros para acompanhar a situação e soar o alerta para a população local. Além de compartilhar as decisões e responsabilidades com toda a sociedade.
Philip Scott e Luiz Vianna